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Cadernos de campo, reflexões e partilhas sobre o fazer etnográfico

Diário de Campo

Resumo da pesquisa
Publicado em 12 de março de 2026 às 14:30 ANTROPOLOGIA-ETNOGRÁFICA

Parteiras e a Espiritualidade: Saberes Tradicionais e Práticas do Cuidado à Vida entre os Tembé, pescadores de Itapuá e quilombolas do Umarizal

Pesquisa de campo percorreu mais de 600 km na Amazônia Paraense — O trabalho de conclusão de curso do licenciando Renilson de Brito Fagundes, apresentado à Universidade do Estado do Pará (UEPA), investiga as práticas de partejar em três grupos sociais tradicionais: a aldeia Ytuaçu Tembé (Terra Indígena Alto Rio Guamá), o quilombo Umarizal (Baião/PA) e a ilha de Itapuá (Vigia/PA). A pesquisa, orientada pelo Prof. Dr. Manoel Ribeiro de Moraes Junior, obteve conceito 10 e destaca a espiritualidade como elemento central no cuidado à gestação, parto e pós-parto.

“Nós, mulheres, somos como uma flor; quando chega a hora, ela se abre para a criança nascer.”

— parteira pedagoga, quilombo Umarizal

A etnografia multissituada ouviu parteiras, pajés, benzedeiras e erveiras. Na aldeia Ytuaçu, uma parteira de 64 anos, também pajé, relatou que o dom de partejar é concedido pelos encantados — seres das profundezas das águas e da terra. Entretanto, com a chegada do Subsistema de Saúde Indígena (SASISUS), ela foi orientada a interromper os partos tradicionais. Hoje atua como Agente Indígena de Saúde e ainda realiza o “puxamento de barriga” e benzeções, práticas essenciais para as gestantes da comunidade.

“Eu só não faço o parto das mulheres daqui porque o pessoal não aceita. […] O médico faz a ultrassonografia, e a data não bate com a que a gente está acostumada. Aí, como dá errado, os médicos acabam tirando, achando que estão certos.”

— parteira Ytuaçu Tembé (diário de campo, nov. 2023)

Tembé (Ytuaçu)

Parteira-pajé de 64 anos. Enterro da placenta no solo, chá do cordão umbilical, relação com os encantados. Conflitos com religiões evangélicas e pressão do DSEI.

Quilombo Umarizal

Parteira de mil partos (in memoriam), “pedagoga” e mestra das ervas. Uso de barbatimão, amor-crescido, pinhão-roxo. “Filhos do umbigo” e devoção a santos.

Ilha de Itapuá

“Aventureira”, 74 anos, aprendeu partejar com enfermeira Olgarina. Realizou partos domiciliares, usa óleo de andiroba, puxação de barriga. Fé em Deus e Santana.

Banca: 28/03/2025 · conceito 10 orientador: Manoel R. de Moraes Jr.